
Arne Larsson tinha 43 anos e desmaiava dezenas de vezes por dia. Uma infecção viral havia deixado seu coração com bloqueio atrioventricular total, condição em que o impulso elétrico que comanda os batimentos não chega aos ventrículos da forma correta. Em 8 de outubro de 1958, no Hospital Karolinska, em Solna, na região de Estocolmo, ele se tornou o primeiro paciente a receber um marca-passo totalmente implantável. A cirurgia completa 68 anos nesta semana e ocupa um lugar central na história do marca-passo.
Um aparelho que ainda não estava pronto
O dispositivo foi desenvolvido pelo cirurgião cardíaco Åke Senning e pelo médico e engenheiro Rune Elmqvist, que trabalhava na indústria de equipamentos médicos. Os dois ainda consideravam o aparelho experimental. Até então, os marca-passos existentes eram externos, grandes e dependiam de tomada ou de baterias fora do corpo, o que prendia o paciente à cama ou a um carrinho.
Quem convenceu a equipe foi Else-Marie Larsson, esposa de Arne. Diante da piora do marido, ela insistiu para que o aparelho fosse testado. O resultado ficou famoso pela precariedade: o primeiro dispositivo funcionou por poucas horas e precisou ser substituído pelo único reserva disponível, que durou algumas semanas. O invólucro era moldado em resina epóxi, e as baterias recarregáveis eram carregadas por indução, através da pele.
Mesmo com essa curta duração, o caso provou que era possível manter o ritmo cardíaco com um aparelho inteiramente dentro do corpo. Arne Larsson viveu mais de quatro décadas depois da cirurgia, recebeu mais de vinte aparelhos ao longo da vida e sobreviveu tanto ao cirurgião quanto ao engenheiro que o atenderam.
“Quem convenceu a equipe foi Else-Marie Larsson, esposa de Arne.”
Da resina epóxi aos dispositivos atuais
A evolução nas décadas seguintes foi rápida. Alguns marcos ajudam a entender o caminho:
- baterias de lítio, adotadas a partir dos anos 1970, aumentaram muito a durabilidade dos aparelhos;
- eletrodos introduzidos pelas veias até o coração dispensaram a abertura do tórax na maioria dos casos;
- marca-passos de demanda passaram a estimular o coração apenas quando o ritmo natural falha, em vez de disparar sem parar;
- modelos de dupla câmara coordenaram átrios e ventrículos, imitando melhor o funcionamento normal;
- sensores de atividade passaram a acelerar a frequência durante esforço físico;
- aparelhos sem eletrodo, implantados diretamente dentro do coração por cateter, chegaram à prática clínica neste século.
Hoje o gerador tem o tamanho aproximado de uma caixa de fósforos ou menor, e o implante costuma ser feito com anestesia local, por uma pequena incisão abaixo da clavícula. O acompanhamento é feito em consultas periódicas, e muitos modelos permitem monitoramento a distância.
O que o marca-passo faz no ritmo cardíaco
O coração tem um sistema elétrico próprio. O impulso nasce em uma região do átrio direito chamada nó sinusal e percorre um caminho até os ventrículos, que se contraem e bombeiam o sangue. Quando esse sistema falha, a frequência pode cair demais ou o impulso pode ser bloqueado no meio do caminho.
O marca-passo monitora continuamente a atividade elétrica e, se o coração não bate na frequência mínima programada, emite um estímulo elétrico que provoca a contração. As indicações mais comuns incluem bloqueios atrioventriculares avançados e doença do nó sinusal com sintomas, como tontura, desmaio, cansaço intenso e falta de ar.
Vale diferenciar o marca-passo do cardiodesfibrilador implantável. O segundo também pode estimular o coração, mas foi criado para reconhecer arritmias graves e aplicar um choque para interrompê-las. Há ainda dispositivos de ressincronização, usados em alguns casos de insuficiência cardíaca.
A vida com um marca-passo
Quem recebe o aparelho costuma voltar às atividades habituais depois de um período de recuperação. Alguns cuidados fazem parte da rotina: carregar o cartão de identificação do dispositivo, avisar sobre o implante antes de exames de imagem e procedimentos, manter o celular a uma distância razoável do gerador e seguir o calendário de revisões para checar bateria e eletrodos.
A história iniciada em 1958 mostra como uma ideia improvisada, levada adiante por insistência de uma família, abriu caminho para um tratamento que hoje é rotina em hospitais de todo o mundo.
Pontos que geram dúvida
Quem recebeu o primeiro marca-passo implantável? O engenheiro sueco Arne Larsson, em 8 de outubro de 1958, no Hospital Karolinska, na região de Estocolmo. A cirurgia foi feita por Åke Senning, com aparelho desenvolvido com Rune Elmqvist.
Quanto tempo dura a bateria de um marca-passo atual? Depende do modelo e do quanto o aparelho precisa estimular o coração, mas costuma durar muitos anos. A troca do gerador é programada nas consultas de acompanhamento.
Marca-passo e desfibrilador implantável são a mesma coisa? Não. O marca-passo corrige ritmos lentos ou bloqueados. O desfibrilador implantável foi feito para identificar arritmias graves e aplicar choque, embora muitos modelos também tenham função de marca-passo.
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